quinta-feira, julho 03, 2008

A realidade

Símbolos
Ao cartesiano “Penso, logo existo” contraponho o “Percepciono, logo existo”. Para existir um símbolo é necessário existir pelo menos um sistema cognitivo que o reconheça. A pergunta “O que é um símbolo?” tem como reposta “O Natal é quando um homem quiser”. Significa isto que sem sistema cognitivo que os apreenda, não existem símbolos. Os símbolos são criados pela cognição. O real concreto e particular, físico, externo à cognição, indiferente à cognição, pode ser ou não símbolo. Tudo depende de como é percepcionado.

Limites da cognição
A realidade é ilusão. No fundo, no fundo, ninguém sabe como é a realidade A realidade é como é, e não como nós julgamos que ela é. A nossa cognição constrói modelos da realidade, aproximações da realidade. Uma analogia possível será aquela que envolve os mapas. Nenhum mapa das estradas pode representar com toda a fidelidade a rede viária. Existem sempre aproximações, resumos, detalhes ignorados. Senão, se tudo, tudo, mas mesmo tudo lá estivesse, o mapa teria de ser a própria estrada. A representação mais completa de qualquer objecto é o próprio objecto. A função do mapa é permitir lidar com as informações convenientes, evitando as outras. Um modelo é útil enquanto redutor de uma complexidade. A nossa cognição do que é a realidade não passa de um modelo da dita cuja.

Do contraditório deduz-se o que se quiser
Irreconciliáveis, antagónicos, indecidíveis são os conceitos estruturantes. São os fotões partículas ou ondas? O espaço é contínuo ou discreto? Essência ou aparência? Eterno ou efémero? Os conceitos mais amplos, mais estruturantes, têm de emergir como antagonismos tão irreconciliáveis quanto indecidíveis. Pois são eles as fronteiras últimas do alcançável pela razão. Para lá deles reside o mistério do icogniscível. E assim se alcançam as fronteiras, gélidos ermos solitários onde termina a alma humana e se pressentem os abismos agrestes do vácuo misterioso, fértil e pranho de enigmas, futuros e transcendentes.

Proponho ao leitor que olhe para uma folha de papel branco. Uma vulgar folha de papel branco, nova, sem vincos, sem marcas. Homogénea. Imaculada. Intui-se um contínuo. Olhando com uma lupa surgem fibras. Desfaz-se a ilusão do contínuo uniforme.
Para o que pretendo chamar a atenção é o seguinte: Não é possível concluir se o espaço é um contínuo, divisível sem fundo, ou uma multidão discreta. Conservando-se a indecidibilidade, ambas as representações conduzem às mesmas conclusões. Nalguns casos uma representação será mais fácil de manipular que a outra. O cinema é disso o exemplo acabado, pois propõe-nos o fluir contínuo do movimento a vinte e quatro fotogramas por segundo.

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