domingo, outubro 28, 2007

Borges

Admirável Borges.
Admirado Borges!
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“Três dimensões tem a vida, segundo Korzybski”… Creio que é permissível aqui uma observação fundamental; a do suspeito de uma teoria que assenta, não num pensamento, mas numa mera comodidade classificável, como o são as três dimensões convencionais. Escrevo CONVENCIONAIS porque - separadamente - nenhuma das dimensões existe: dão-se sempre volumes, nunca superfícies, linhas nem pontos… Perante a incalculável e enigmática realidade, não creio que a simples simetria… baste para a esclarecer e seja outra coisa para além de uma vazia lisonja aritmética.
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O espaço é um acidente no tempo e não uma forma universal de intuição, como impôs Kant. Há regiões inteiras do Ser que não o requerem: as do olfacto e da audição.
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Há um conceito que é o corruptor e o desatinador dos outros. Nâo falo do Mal, cujo limitado império é a ética; falo do infinito.
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… do marquês de Laplace (que declarou a possibilidade de cifrar numa única fórmula todos os factos que serão, que são e que foram) e do inversamente paradoxal doutor Rojas (cuja história da literatura argentina é mais extensa que a literatura argentina)…
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Compilei uma vez uma antologia da literatura fantástica. Admito que essa obra é das pouquíssimas que um segundo Noé deveria salvar de um segundo dilúvio, mas delato a culposa omissão dos insuspeitos e maiores mestres do género: Parménides, Platão, João Escoto Erígeno, Alberto Magno, Espinosa, Leibniz, Kant, Francis Bradley. Com efeito, o que são os prodígios de Welles ou de Edgar Allan Poe - uma flor que nos chega do futuro, um morto submetido a hipnose - comparados com a invenção de Deus, com a teoria laboriosa de um ser que de certo modo é três e que solitariamente perdura fora do tempo? … Tenho venerado a gradual invenção de Deus; e também o Inferno e o Céu (uma remuneração imortal, um castigo imortal), admiráveis e curiosos desígnios da imaginação dos homens.
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Hollywood, pela terceira vez, difamou Robert Louis Stevenson. Esta difamação intitula-se “O Médico e o Monstro”, perpetrou-a Victor Fleming, que repete com aziaga fidelidade os erros estéticos e morais da versão (da perversão) de Mamoulian.
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terça-feira, outubro 16, 2007

Esqueletos

Acredito que o relato é verdadeiro, ainda que muitos dos pormenores sejam apócrifos. Ocorreu já lá vão séculos, mas poderia ter sido ontem, dado que os intervenientes são actuais. As profissões mudam, mas as necessidades nem por isso. Foi assim que ela me chegou, fria e inquietante.

Naquele tarde polaca, com o céu tão carregado, no cemitério acontecia um movimento contrário ao costumeiro. O coveiro discutia com o médico.
“Mas, sr. Dr. Eu digo-lhe que nunca tal vi. O osso é sempre inteiro, nunca o vi partido.”
“É você que não sabe ver. Desde Hipocrates que se sabe que os homens têm o esterno segmentado em 7 partes. Vê-se logo que nunca leu Hipocrates.”
“Mas Sr. Dr., eu garanto-lhe que não toquei na sepultura da sua esposa, que Deus tem. Se o osso está inteiro, é porque era assim. Ninguém lhe mexeu, ninguém a desrespeitou, muito menos eu.”
“Homem, não me diga que a minha esposa tinha o peito mal gerado. Você está é a querer enganar-me! Profanou a sepultura sei lá para quê. Se calhar é a sua mulher que faz bruxarias com os restos dos cadáveres. Tirou de lá o corpo de minha mulher, e pôs lá esse corpo aleijado. Isto não vai ficar assim, garanto-lhe.”
“Não tenho culpa nenhuma. Toda a gente tem o osso inteiro, até a sua esposa. Nunca mudei nenhuma sepultura em que esse osso estivesse ao bocados. Sr. Dr. tenha dó de mim, que só estou aqui a fazer o meu honesto trabalho.”
“Dó de si, profanador de sepulturas? Você violou a memória da minha mulher. E sei perfeitamente que me está a querer enganar com essa história de que toda a gente é assim. Hipocrates guia-me, e eu vou guiar a justiça até si!”

- - -Gastam os olhos a lerem nos livros, e ficam cegos para a realidade que os rodeia.
Ontem tal como hoje.