terça-feira, julho 31, 2007

Vaticano

Não me perguntem como nem porquê, ontem tive de ir ao Vaticano, aquele estado soberano com 44 hectares incrustado no centro de Roma. Dos afazeres fez parte assistir a uma missa, celebrada pelo próprio Papa. Eu e as missas não nos damos bem, mas as razões de família são mais fortes que as razões ideológicas, e lá dei por mim na pequena assistência. Quando chegou a vez das leituras, um daqueles tipos todo vestido de branco e escarlate cumpria a produção oral, enquanto o impassível Papa estava sentado, com duas crianças, de 4 ou de 5, ao colo, uma em cada perna. Um marfanhão já nos nos seus 9 ou 10 também quis ir para o santo colo, e ala, que lá é se vai estar bem. Mas o colo ocupado estava, e trepar fácil não era. Agarra com uma mão em cada petiz e puxa, para se içar. Para evitar cairem, os petizes abraçam-se com determinação à augusta figura que os amparava, que não reagiu do torpor em que se adivinhava. Toda aquela pirâmide de corpos oscilava e ameaçava desabar. Nenhum dos envolvidos na cuidada coreografia litúrgica se desviava da rota pré determinada.

De onde estava foi-me fácil dar duas passadas, e jogar uma mão. Derrocada evitada, marfanhão neutralizado, regresso num ápice ao lugar que me competia. No final da cerimónia, um eventual lacaio fez-me saber que uma distinta personagem desejava falar comigo. Os meus pais acharam por bem que fosse imediatamente, e ficaram numa das labirínticas antecâmaras.

Conforme entrava no austero gabinete e observava as graves faces, qualquer coisa não batia certo. O recente episódio era com certeza a causa próxima, mas aqui havia história dentro da história. A conversa irritou-me. De repente, fui acusado de ser “um perigoso católico tradicionalista”. Desculpem? Que se passa aqui? É assim que no Vaticano o poder actua? Este Papa tem de ir, porque já não serve? O delírio dos personagens presentes abatía-se sobre mim, em consecutivas bátegas orais, que me encharcavam o raciocínio e afogavam a razão.

“Não estou para aturar isto”, decidi! Levantei-me e afastei-me a passos largos. Passei pelos meus pais e disse-lhes que ia de imediato para o hotel, que eles acabassem de tratar dos assuntos, que depois ao jantar já devia estar melhor. Saí do Vaticano por uma porta secundária, de serviço, como um anónimo.

Ainda não voltei a vê-los. Os telemóveis não dão sinal. Isto não está a acontecer.

domingo, julho 08, 2007

A Eternidade

Na sequência do LiveEarth:

De todas as coisas que fazemos enquanto espécie actualmente dominante neste planeta, aquelas que são inexoravelmente eternas são as extinções. A extinção é para sempre. É eterna.

A extinção cutural é tão extinção como as outras. Na agricultura, as monoculturas têm arrasado ecosistemas. Na cultura humana, a monocultura do Inglês é igualmente perniciosa.
Que os Anglo Saxónicos publiquem em Inglês.
Que os Chineses publiquem em Chinês (mandarim, cantonês, …).
Que os Alemães… .
Que os Franceses … .

Tristes nós, que procuramos brilhar numa língua alheia e desprezamos o nosso tesouro.